EVA

                                                                                    A MÃE DE TODOS OS VIVENTES
                                                                      

Seus olhos abriram-se para uma Claridade, seus ouvidos, para uma Voz.

A seguir, uma voz mais baixa exclamou em jubilosa exaltação : “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2:3).

Adão segurou-a nos braços, e o riso deles ecoou como rios que se encontram e desembocam na mesma foz.

O homem e a mulher andavam juntos no paraíso, nus e sem qualquer vergonha, à vontade consigo mesmos e com Deus. Nenhuma sombra cobria o Éden, nenhuma desordem, discórdia ou medo.
Certo dia, a serpente falou à mulher : “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?

É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3:1-5).
A mulher escutou. Lembrou-se da Claridade, da Voz de Deus que a enchera de alegria. Será que poderia mesmo ser como Deus? A dúvida e o desejo a invadiram até que ela não só colheu como também comeu o fruto e o deu ao marido. De repente, a escuridão entrou no Éden. Não procedia do exterior, mas sim do interior, irrompendo, enchendo as almas de sombras, desejos e miséria.

A ordem deu lugar à desordem, a harmonia à discórdia, a confiança ao medo.
Em breve ouviram o som do Criador andando pelo jardim e se esconderam. “Onde estás?” perguntou Deus a Adão (v.9).
Ele respondeu: “Ouvi a tua voz no jardim e, porque estava nu, tive medo, e me escondi” (v.10).
O pecado penetrara em seus corações e Deus os baniu do Éden pronunciando juízo primeiro sobre a serpente astuciosa, que tentara a mulher, e em seguida sobre a mulher e o marido.

O Senhor acrescentou esta promessa à maldição da serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (v.15).

Para a mulher, Deus disse: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (v.16).
A seguir, Deus advertiu Adão de que, depois de uma vida de trabalho árduo, sua força diminuiria até que seu corpo finalmente voltasse ao pó, do qual Deus o formara.

A maldição da morte caiu subitamente sobre o novo mundo.
Assim, Adão e sua mulher saíram do paraíso e Adão a chamou de Eva, pois viria ser a mãe de todos os seres humanos.

Porém, o primogênito deles, Caim, tornou-se um assassino e seu segundo filho, Abel, sua vítima.
Tristeza após tristeza invadiram o coração da primeira mulher e, quando a vemos pela última vez, já não deveria ser aquela bela criatura recém-formada pela mão de Deus, mas sim uma mulher angustiada.

Sua pele danificada pelo sol e pela idade recobre os ossos, áspera e ressecada. Suas mãos, inquietas, agarram-se ao solo pedregoso em que está deitada, procurando algo para aliviar sua dor.

Sente a criança em seu ventre, o corpinho procurando um meio de sair. Gritos de mãe e filho se ouvem como um coral em uníssono. E nasce Sete.
Com o filho aconchegado ao seio, o alívio começa a estampar-se no rosto de Eva.

Enquanto descansa, um sorriso se forma e, finalmente, o riso brota em seus lábios. Por mais que tente, não consegue sufocar a alegria.

Ela se recorda da Claridade, da Voz e da promessa que Deus fizera: mais cedo ou mais tarde, apesar de muitos sofrimentos, seu descendente iria esmagar a serpente. A mulher venceria.

Eva foi a primeira mulher a conceber um filho, a primeira a abrigar um óvulo fertilizado em seu útero. Será que compreendia o milagre que acontecia dentro dela, enquanto sua barriga aumentava e a criança começava a mover-se? Teria experimentado a maravilha do amor por uma criança ainda em seu ventre? A Bíblia não dá essas respostas, mas conta que Eva reconheceu que a vida estava sob o controle de Deus. Quando Caim nasceu, exclamou: “Adquiri um varão com o auxílio do Senhor” (Gn 4:1).
O castigo de Deus sobre Eva – “em meio de dores darás à luz filhos” – foi, sem dúvida, o que Eva experimentou no nascimento desse primeiro filho. É o processo apropriadamente chamado de trabalho de parto.

Eva deve ter suportado as dores e passado por todo o processo de dar à luz com a ajuda de Adão.
Mais tarde, as mulheres hebréias eram assistidas por parteiras experientes, que conheciam recursos para as dificuldades comuns do parto. As responsabilidades das parteiras após o nascimento incluíam cortar o cordão umbilical, lavar o recém-nascido, esfregá-lo com sal para limpeza e depois enrolá-lo em faixas.
O “assento” mencionado em Êxodo 1:16 (Versão ARC) era provavelmente um banquinho baixo, sobre o qual a parturiente ficava de cócoras, permitindo que a força da gravidade ajudasse no processo do nascimento.

A parteira e possivelmente outras parentes próximas seguravam as mãos da mãe para dar conforto e estabilidade, enquanto ela fazia força.
Através dos séculos, as mulheres tiveram de suportar os resultados do pecado de Eva.

Se sofrimento no parto as une no laço comum de uma experiência vivenciada apenas por mulheres, a qual consiste numa combinação singular de coisas desta vida com elementos sobrenaturais. As dores e as contrações associadas ao nascimento de uma criança são da terra, da própria Eva.

Mas o que surge desta experiência, bem como o laço entre a mãe e a criança, é sobrenatural, algo que apenas o Criador da vida poderia forjar.